Fechas o fecho do casaco amarrotado pelo tempo que passaste naquela troca de palavras, tal e qual um jogo de xadrez. Não chove, mas tens os olhos cheios do mesmo cinzento de tristeza. Deixas a porta aberta e olhas para o céu, num dia em que a meteorologia e o coração te sabotaram os planos para a noite. Vagueias e levas as mãos à cabeça. Tiras um cigarro, fumas a desordem, deixas que a nicotina tome conta do momento e te conceda dois minutos de paz. Inspiras o frio da madrugada, a perna tão inquieta como daquela vez em que um beijo te mudou a trajectória de vida. Tens hora para chegar, apetece-te fugir. Cheira a orvalho e começa a cair aquele vapor nos cabelos, quase como se lavasse as ideias. Estás de costas, mas parece que estás prestes a chorar. Passaste dos limites, fazes a pausa habitual do típico arrependimento de quem faz algo sem pensar. Procuras no firmamento uma luz no negro da noite, queres fugir mas não tens para onde correr. Perdes o controlo, finalmente sabes o quanto custa e vais ficar aí, ate o tabaco apagar as memórias de um passado que não escolheste. Queres mudar o rumo do jogo mas continuas estático a olhar para um nada cheio de sufoco. Deixas que eu me consuma, que eu me afogue neste mar de incertezas, de um amor que traz arrepios, cegueira. Loucura natural da sinceridade bombardeada pelo excesso de tempo passado nas minhas entranhas. Deixas-me nervosa, fixas-me como se fosse eu a assassina do teu bem-estar, de tudo aquilo que significa a palavra “amor”. Entras no carro e voltas ao tom de voz de quem só tem boas intenções, tornas aquilo que nos une num ténue fio de cabelo, amaciado pelos teus adjectivos baratos. Falas de sentimentos em palavras que não os conseguem exprimir. Apetece-me sair, deixar que te gelem as utopias, dizer-te que não sou a mulher ideal. Calo-me. Silêncio. Sorris. Gargalhas como se estivesses a gozar com o momento. E eu lembro-me de todas as vezes que sorri assim, criança transportada para aquele lugar especial no cantinho do meu imaginário. Rio-me também, de nervos, de medo. Riso de choro, como se pensasse que amanhã pode chover. Deixas que eu me esconda no teu peito quente e seguro quando vês a dor no meu sorriso, deixas que eu pense em Verão e no nosso secretismo delicioso. Agarras a minha mão, prendes-me e pedes-me para não te deixar. E eu fico ali, deixo o vento ardente apoderar-se de nós, pelo menos esta noite. Deixo que sejas o meu sonho, que me rasgues o peito com o sopro do teu beijo. Esqueço-me do frio, da roupa desmazelada e do cabelo no ar e caminho na direcção deste quebra-cabeças, do paradoxo que é estar preenchida pelo risco. Já não me sinto sozinha e seguro um cigarro nos lábios para me aquecer a alma atónita de sentires inexplicáveis. E saio, finalmente, num passo arrastado de saudade, sem olhar para trás, com esperança que a noite seja delicada.
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
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